TURISMO SÉNIOR: CARACTERIZAÇÃO GEOGRÁFICA E IMPACTOS BIOPSICOSSOCIAIS

Turismo Sénior: caracterização geográfica e impactos biopsicossociais2018-08-30T22:19:52+00:00
RESULTADOS DO ESTUDO

Viajar na reforma reflete-se positivamente na vida dos idosos e o turismo sénior tem um impacto positivo na autoestima dos participantes, conclui uma investigação conduzida por Ricardo Pocinho, presidente da Associação Nacional de Gerontologia Social, e José Rodrigues, professor do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Segundo os autores do estudo “Turismo Sénior, caracterização geográfica e impactos biopsicossociais”, que terminou em maio deste ano e tem vindo a ser publicado em revistas internacionais da especialidade, os dados obtidos mostram que os idosos que costumam viajar, têm uma percepção positiva em relação à satisfação com a vida. Da mesma forma, apresentam sintomas de solidão mais baixos que a restante da população idosa, assim como a ausência de sintomas de depressão e ansiedade.

Com o estudo, os investigadores procuraram analisar qual a contribuição que a ocupação do tempo de lazer com atividades turísticas tem na vida do idoso a nível biopsicossocial. Baseado num inquérito feito em Portugal continental e ilhas a 658 pessoas, 342 do género masculino e 316 do genero feminino entre os 65 e 85 anos de idade, o estudo permite concluir que 64,9 % viajam com o respetivo cônjuge, vivem em meios urbanos, têm habilitação escolar a nível do secundário. Mais de 50% dos inquiridos faz duas viagens por ano, sem sair do país, e revelam ter boa forma física e mental.

No decurso da investigação, foi também analisada a importância que o turismo sénior tem nos idosos a nível biopsicossocial, tendo-se revelado ser igualmente positivo. Da mesma forma, o turismo sénior apresenta-se como tendo um impacto positivo em relação à autoestima dos participantes.

Em relação ao impacto das atividades do turimso sobre a qualidade de vida dos turistas mais velhos, a maioria referiu sentir menos sentimentos de solidão, mais felicidade, mais esperança para o futuro, mais bem-estar, mais motivação e melhor qualidade de vida e, consequentemente, menos sintomas de depressão e ansiedade.

INVESTIGADORES RESPONSÁVEIS

Ricardo Pocinho – pocinho@hotmail.com

José Rodrigues – jose.alberto@ipcb.pt

INTRODUÇÃO E OBJETO DE ESTUDO

O aumento da longevidade tem sido justificado pelos avanços constantes não só no que respeita as questões médicas, mas também às condições sociais e politicas. De facto as pessoas têm mais anos de vida pois têm todas as condições para que tal aconteça. É necessário que estas condições sejam as melhores e que possibilitem viver com qualidade e em pleno bem-estar (Clemente, Frazão & Mónico, 2012). Um bem-estar físico, mental e social, onde se incluem hábitos de vida saudáveis (alimentação saudável), funcionamento eficaz das capacidades cognitivas (aprendizagem e memória), competências sociais e estabelecimento de relações. Pressupõe também autoestima elevada, autonomia, confiança e controlo das emoções. Os parâmetros anteriores são bastante subjetivos, importa o que cada um considera relevante para viver bem, e o que de facto é necessário para viver o dia-a-dia com satisfação e bem-estar.

A transição para a aposentação pode colocar em causa o bem-estar e a estabilidade da pessoa, mas Simões (2006) garante que a preparação prévia possibilita encarar esta fase como um tempo de desafios e oportunidades e como um “estádio de vida ativa” em que a pessoa transita da sua vida profissional para uma situação nova, com novos significados que irão depender da forma como cada um encara esta fase. Algumas pessoas preferem encarar esta fase como uma etapa de lazer, em que procuram realizar projetos e atividades que desejavam à muito tempo, outras preferem vê-la como uma oportunidade para se dedicarem ao serviço da comunidade (voluntariado) e para outras poderá ser um tempo dedicado à família (cuidado dos netos). No entanto, o momento da aposentação pode ser difícil de encarar. Isayama e Gomes (2008) referem que o tempo livre e o lazer na terceira idade representam um momento de oportunidades, tomada de decisão e convívio social. Devendo ser ocupado com atividades de interesse pessoal, procurando uma maior independência e superação de desafios. As atividades de lazer, de acordo com Moura e Souza (2012), proporcionam um bem-estar psicológico e social mas também trazem benefícios para a saúde cognitiva do idoso. Os ganhos são igualmente importantes quando as atividades são realizadas em grupo, possibilitando a aquisição de conhecimentos e melhorando a autoperceção de saúde. De igual modo é importante o desenvolvimento das competências pessoais e sociais da pessoa, e da pessoa como elemento de um grupo, a estimulação do autoconhecimento, a estimulação da interação entre a pessoa e o grupo e a dinâmica de grupo, o divertimento, a ocupação do tempo, a promoção do convívio e a divulgação dos conhecimentos, artes e saberes. Ou seja promover maior qualidade de vida (Jacob, 2007). Dounal (1997) refere que para conseguir atingir esta qualidade de vida na terceira idade é necessário existir: bem-estar físico, relações familiares, participação na comunidade, atividades recreativas, atividades espirituais e desenvolvimento pessoal. Jacob (2007) acrescenta, a importância da autonomia para as tarefas do quotidiano, os recursos económicos suficientes e a realização de atividades lúdicas e recreativas. Atividades que podem ser escolhidas livremente, e que impedem o declínio físico e psicológico, a sensação de inutilidade e a perda de sentido de vida (Souza, 1998). Permitem, de igual forma, manter a funcionalidade, o reconhecimento, a validação de capacidades, sentimentos de autorrealização, e manutenção dos contatos sociais. Estes são potenciadores de satisfação e possibilitam que o idoso percepcione de melhor forma o bem-estar subjetivo (Clemente et al. 2012).

O Turismo Sénior surge desta forma para responder às necessidades de uma sociedade cada vez mais envelhecida, e que necessita de respostas, que garantam a melhoria das condições de vida das pessoas, mas também representem uma sustentabilidade da economia. O crescimento da população sénior tem feito com que este seja um mercado com grande potencialidade. A disponibilidade de tempo e o nível de rendimento disponível das faixas etárias mais velhas tem servido de interesse para a indústria do turismo (Martínez-Garcia, 2013). Segundo Martínez-Garcia (2013), os operadores turísticos têm vindo a apostar no sector do turismo sénior, dirigindo atividades para a terceira idade. De acordo com o estudo “Programa Turismo Sénior 2001-2005, os resultados obtidos revelaram que este género de programas têm um papel muito importante para melhorar a qualidade de vida dos participantes. Evidenciam-se alguns benefícios como: conhecer outros locais e sair da rotina, oportunidades de socialização (amigos, família e novas amizades), enriquecimento cultural, repouso, oportunidade de participar em atividades lúdicas, melhorias na saúde e combate à solidão (Eusébio, et al., 2012).
Verificando-se o interesse crescente da investigação na área do turismo sénior, torna-se crucial perceber qual a sua caracterização no território português e qual o impacto que estas atividades têm na vida das pessoas idosas ao nível dos aspetos biopsicossociais. E, também, interessa perceber de que forma se diferenciam estes impactos consoante as áreas geográficas do território de Portugal.

HIPOTESES E OBJETIVOS A ESTUDAR

O presente estudo pretende analisar qual o contributo que a ocupação dos tempos livres com atividades de turismo tem na vida das pessoas idosas a nível biopsicossocial.

De uma forma específica, a investigação pretende responder a dois objetivos gerais: (1) realizar a caracterização geográfica dos turistas seniores; (2) analisar o impacto do turismo sénior na vida das pessoas idosas a nível biopsicossocial.

As hipóteses, específicas, centram-se em:

  1. Serão os turistas seniores detentores de uma perceção positiva relativamente à sua qualidade de vida?
  2. Os turistas seniores consideram-se felizes?
  3. A prática de atividades relacionadas com o turismo sénior tem um impacto protetor nos sintomas de depressão e da ansiedade?
  4. Os turistas seniores sentem uma menor solidão?
  5. Existirão diferenças geográficas no que diz respeito aos impactos biopsicossociais?
METODOLOGIA
Estudo descritivo de corte transversal com um grupo único de participantes com idades a partir dos 65 anos de idade (terceira idade).

Amostra populacional será dividida por zonas geográficas a nível nacional: norte, centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, Algarve e ilhas, de forma a permitir a caracterização geográfica do turismo sénior.

Critérios de inclusão:

  • Pessoas com 65 ou mais anos de idade;
  • Pessoas idosas que frequentam programas de turismo sénior ou que pratiquem atividades relacionadas com turismo.

Critérios de exclusão:

  • População com idade que não respeita o critério de inclusão.
  • Não serão excluídos pessoas idosas com sintomatologia depressiva ou ansiógena, uma vez que o estudo pretende a realização dessa caracterização.

Desenho:

Análise descritiva das variáveis por frequências absolutas e relativas, médias e desvios padrão para verificar o perfil caracterizador das pessoas idosas que frequentam os programas de turismo sénior.

Análise de correlações entre as variáveis depressão, ansiedade, solidão e satisfação com a vida medidas pelo coeficiente de Correlação de Pearson.

Procedimento:

Os instrumentos presentes no protocolo de avaliação foram selecionados tendo em conta os objetivos de análise do presente estudo, assim como a população alvo. Teve-se o cuidado de se estabelecer uma ordem de administração dos instrumentos para que o preenchimento das escalas respeitantes à sintomatologia depressiva e ansiógena não influenciasse a resposta dos participantes nos restantes instrumentos. Pretendeu-se, assim, obter dados fidedignos da percepção dos participantes relativamente à frequência dos programas de turismo sénior e que essa percepção não fosse enviesadamente contaminada.

Instrumentos de investigação / questionários

  • Questionário sociodemográfico
  • Escala de Satisfação com a Vida – SWLS
  • Escala de Solidão –UCLA
  • Escala de Depressão Geriátrica – GDS 30
  • Inventário de Ansiedade Geriátrica – GAI

Variáveis a estudar:

Relacionados com aspectos biopsicossociais no envelhecimento.

  • Sintomas depressivos
  • Sintomas de ansiedade
  • Percepção de solidão